5 de agosto de 2011

Dados do campo: agrofamiliar versus agronegócio

Um dos institutos do governo federal que mais admiro é o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que ao contrário do que o nome ou a própria história possa sugerir, é um dos raros casos onde se vê número voltado ao lado social. Geralmente, ou os números ficam no looping sem fim de se autojustificar, ou a balela social fica restrita nas cabecinhas doentes de pseudossocialistas. E para você que chega agora, eu escrevo sim na nova ortografia. Não sei o que é pior, afundar a cabeça – e os olhos – em números sem profundidade, ou se enclausurar num mundinho fantasioso de justiça social pessoal.

O IPEA, diferentemente, consegue casar os dois de maneira magistral. Utiliza-se de inúmeros parâmetros, pesquisas e indicadores para tecer comentários, indicações, publicações e formulações certeiras sobre os retratos econômicos brasileiros. E já que é o dinheiro que movimenta o mundo, o dinheiro que molda o território, as relações e as pessoas, esses retratos passam por todas as esferas.

Outro ponto positivo é a franqueza com que trata esses assuntos. Os estudiosos não seguem a cartilha de governos populares aonde tudo vai bem ou se não vai, melhorará. Se algo não funciona como devia, é devidamente apresentado, despido, e indicado como se deve tratar. A transparência nas feridas, mesmo compondo o próprio governo federal, possibilita criticar o rumo das políticas públicas e ser incisivo de todas as maneiras, seja nos relatórios dos técnicos e estudiosos, mais enxutos, ou nas grandes compilações de publicações. E quando falo grandes, leiam-se enormes. Das 14 publicações que tenho de lá, só consegui ler duas, por causa de tempo mesmo. Os estudos de desenvolvimento brasileiro e políticas sociais, ambos de 2009, se não em engano, passam brincando de mil páginas. E são páginas onde todo o espaço é aproveitado, seja com tabelas que não utilizam escalas para enganar (ah, saudoso concurso de professor titular para Geografia da UFPE...), ou com as próprias análises, por vezes até mais apuradas que as do IBGE. Na verdade sinto como se o IBGE fizesse o reconhecimento do enorme campo aberto, enquanto o IPEA toca nas particularidades dele. Nessa altura devo estar pagando de fanboy ou mesmo crítico contratado, principalmente para os socialistinhas que torcem o nariz quando veem o logo do instituto. Mas se acalmem, eu sou marxista. Vou repetir, eu sou marxista. Ainda bem que eu não sou TAMBÉM marxista, porque me colocar no mesmo grupo que vocês seria, no mínimo, enervante. Já falei que o problema do marxismo são os marxistas?

Voltando ao assunto. Faz uns tempos que ganhei também uma assinatura da revista deles, a Desafios do Desenvolvimento. É uma publicação simpática, às vezes dando brilho nos olhos (ah, Milton Santos em páginas de revistas mortais...) ou mesmo a normal apatia de passar as páginas sem ler direito. Gosto muito da seção inicial das entrevistas, que nesse último número tratou do atual limbo de políticas urbanas, motivado sobremaneira pela questão fundiária, onde tem muita gente pra morar, e pouco terreno pra construir. Na verdade, terreno tem, mas seu uso, sua função social constitucional, está restrito à especulação imobiliária que atende a no máximo uns 10% da população.

E como já começamos a avançar nos dados, deixando de entrar por aquele bairro escuro e desgostoso do clientelismo e da reforma política, vamos chegando ao assunto que dá título a esse texto. Proponho-me a mostrar alguns dados extraídos de uma matéria da revista, coisa básica mesmo, principalmente àqueles que não frequentam os meios geográficos, para refletir sobre uma questão que passa tão pouco por nossas cabeças.

Confesso que eu mesmo era reticente quanto a esses assuntos. Meio rural, campo, CIÊNCIA AGRÁRIA? Reforma agrária pra mim era apenas um ponto político de pauta, daqueles cinzentos, sem a cor e o calor das pessoas. Movimento de sem-terra então, pra mim era uma aberração, bando de vagabundos baderneiros. Não passei por nenhuma lavagem cerebral para reconsiderar essas questões, muito menos pelo Tio Bira que admiro tanto. Mas vamos lá, é apenas uma questão de conhecer, tomar para si. Vamos excluir que de fato uma parcela seja dessas coisas ruins que eu falei. Agora se ponha no lugar, que logo dará legitimidade a esses movimentos. Apesar de nebulosos, é muito difícil viver e não se ter condições de possuir a segurança de teto para morar, vagar por ruas, frios e fomes, e pior ainda, não ter direito a trabalhar, um trabalho digno, dos mais importantes, principalmente porque uma pequena parcela de grandes empresas estrangeiras limita esse acesso ao nosso tão sofrido povo, que nem ao menos teve direito a um passado tribal justo. Mas já chegaremos nessa parte.

A reportagem Agricultura em família, de Verena Glass, começa com a foto do singelo Francisco da Silva, reproduzida abaixo. São pessoas como ele, de boné velho, camisa suja, de tamanho maior do que deveria, rosto cansado e carregado de trabalho, que colocam a comida na sua mesa. A agricultura familiar, o sistema de roçado minúsculo onde os empregados são a família, o maquinário é quase inexistente e se tem maior cuidado com o ambiente, é o sistema que sustenta a segurança alimentar brasileira, ao contrário do que se pode pensar ao assistir um pouco de Globo Rural com todas aquelas enormes fazendas e recordes e mais recordes batidos com a soja. Aliás, você come só soja? Nem um vegano come puramente só soja.

Para quem não conhece, o agronegócio é um sistema historicamente estabelecido no latifúndio de exploração de trabalho, voltado à exportação de bens primários (commodities), na sua maioria por monocultura. Plantation who? Tira-se já disso a carga de danos que o sistema pode provocar. Então tenha pena daqueles esquerdóides dodóis que não sabem argumentar direito, porque mesmo se eles disserem o mínimo, o latifúndio é o mal do mundo, eles estarão certos.

A agricultura familiar consegue superar o agronegócio em participação na produção de alimentos que constituem a dieta básica do brasileiro. O agronegócio se volta principalmente a produtos com rentabilidade boa, que por vezes não são os alimentos tradicionais. Já a agricultura familiar, policultora de nascença, tem em seu pequeno excedente mais importância do que o agronegócio faz.

E agora a sessão de terror, onde os números falam mais do que as palavras. Dos cinco milhões de estabelecimentos agrários do Brasil, 84% são de agricultura familiar, enquanto 16% são do outro. Este, por sua vez, ocupa apenas 26% das pessoas do setor, enquanto o primeiro preenche os postos de trabalho em 74% (12,3 milhões em comparação com 4,2 milhões). A agricultura familiar, mesmo com todos esses apontadores, ocupa apenas 24% da área agrícola brasileira. Dizem até que 1% dos latifundiários, constituídos de 50 empresas gigantes e estrangeiras, detém 46% de todas as terras. Pra completar, o crédito de bancos públicos em programas agrícolas de incentivo somou R$16 bilhões na safra 2010/11 para os agricultores familiares do Brasil, enquanto o agronegócio, no mesmo período, nos mesmos bancos públicos, nos mesmos programas de crédito, teve acesso a R$100 bilhões.

É de se revoltar, e se entristecer com as mazelas da pátria. Espero um dia ter orgulho mais verdadeiro dessa quase nação que é um meretrício, um circo, uma piada. Quem tem mais, aproveita-se de quem por forças do sistema não teve condições de alcançar posições melhores. E enquanto um dono de uma fabricante de veneno travestido de remédio vegetal se reconforta em algum grande hotel e cassino, rodeado de seu séquito investidor e interesseiro, mergulhado até os cabelos na exploração do planeta ou em alguma bebida valiosa, vertida entre os seios de prostitutas, uns Nivaldos vivem nos corações de mato do Brasil, isolados até mesmo das ondas de rádio, sem ter nem uma geladeira, vendendo o pouco que sobra depois de perambular por quilômetros, para conseguir comprar uma lata de óleo, ou por sorte, fazer a pequena propriedade render R$200,00 por ano.

Agradeço a Deus por ter sucesso na vida, um computador, um blogzinho, ou mesmo saber escrever. Porque nenhuma desgraça é pouca comparada a isso tudo, e não nos resta mais ninguém para agradecer quando estamos ao capricho de um sistema capitalista periférico.

E olha que nem falamos dos agrotóxicos, esses venenos que comemos e nos matam aos poucos. Nós, seus maiores consumidores no mundo inteiro. 


“Um arado profundo passará pelos latifúndios do mundo”, como diz a canção.

Agricultor familiar
Reproduzido sem alguma autorização. A reportagem na íntegra aqui, com a foto original, inclusive.

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