19 de setembro de 2012

A deficiência da imprensa brasileira, a morte dos oficiais na Líbia e um pouco de privacidade

Um intervalo nas histórias.

Faz algum tempo que não mais me aprofundo em acontecimentos no exterior por intermédio da imprensa brasileira. Geralmente, pesco a primeira informação num site brasileiro de que uma bomba explodiu em tal lugar, ou que um drone de tal país foi visto sobrevoando um inimigo. A partir daí, caço sites estrangeiros de notícias para me informar melhor.

Então descubro que a bomba, na verdade, foi um acidente de gás, não um atentado planejado. Que o drone, na verdade, era um teste do próprio país pretensamente espionado.

A imprensa brasileira é cega para o que não quer ver, muda para o que não quer falar, e surda para com quem não aceita suas posturas.

Sabe o que é pior? Isso vai demorar para mudar. Sites como Uol sempre estarão no mainstream com metade de sua home ocupada por futebol, ou o G1 entupido com seus "atores globais". O que mudou, e continuará crescendo, são os meios de informação alternativos, o outro olhar sobre os acontecimentos, proporcionado pela facilidade dos novos instrumentos técnicos, ou ainda a procura por outras fontes do mainstream que não estejam articuladas com a mesma linha das que costumam ser procuradas.

Acostumei-me com a língua inglesa faz algum tempo. Aprendi meio que autodidata, coisa de nerd, sabe. Uma montanha de games, alguma curiosidade e lá estava eu conseguindo me desenrolar um pouco. E quase  sem notar, comecei a frequentar a web gringa.

Pausa.

Sim, existem várias internétezes. Aliás, não pense que acessar o 9gag diariamente vai te fazer um cosmopolita da informação. Geralmente, o que chega por aqui, já é o enlatado que o Legião Urbana cantava há quase três décadas atrás. E se esse enlatado veio do 9fag, com certeza ele surgiu em outros lugares mais obscuros.

Sabe o Pato Dolan? Finlandês. Sabe aquele nerd espinhento? Também finlandês. Até o 4chan, antigo berço de manias, hoje chupa muito conteúdo de outros lugares.


                                                                                                 Pufavô, Dolan!

Não sei se por preguiça do produtor da informação, ou por outras causas , mas a maioria das notícias sobre fatos estrangeiros, publicadas atualmente pela mídia do Brasil, são chupadas de outro lugar. Logicamente é impossível ter bases presentes em todas as regiões do mundo, principalmente para empresas mais modestas, mas isso não dispensa o trabalho de procurar em mais de uma fonte. É a kibada profissionalizada. 

Qualquer um hoje em dia consegue publicar um blog/twitter/facebookpage e cobrir um acontecimento. Qualquer criança de 12 anos, com algum treino, consegue fabricar seus memes no Photoshop e alimentar a Cultura do Remix.

Quer algo sobre pirataria? TorrentFreak. Essa semana vi dois sites pegando conteúdo de lá, sendo eles dos mais acessados do Brasil e vistos como "tendência". Uma coisa é às vezes se fazer o trabalho da extração da notícia, mas é completamente diferente você NUNCA produzir seu próprio conteúdo, como esses blogs mainstream, que muito raramente produzem algo sozinhos além de umas listas. A grande maioria do resto é conteúdo enviado, coisa caçada no Youtube ou nos blogs parceiros. Parece até um novo tipo de corrente, fazendo circular as mesmas coisas.

Repito, o problema não é usar conteúdo alheio. Impossível viver sem isso em tempos de Cultura do Remix e mais impossível ainda de se ler isso no blog de um ativista da pirataria. O problema é o mau direcionamento desse conteúdo, o trabalho parco em cima dele, e por vezes a creditação que não é clara o suficiente, como no exemplo acima, onde uma notícia muito elucidativa foi transformada em posts de no máximo três parágrafos.

Por que não ir além, fazer uma notícia mais completa? Preguiça de traduzir? O Google Tradutor hoje faz um trabalho fantástico, se você não estiver afiado no idioma.

Se saísse em algum jornalzão, tipo a Falha de São Paulo, ainda existiria o problema da inclinação ideológica. Seria algo como BRASIL CAMPEÃO EM CRIMES VIRTUAIS, os mesmos três ridículos parágrafos, e ainda levando nas costas uma série de acordos imorais com empresas da indústria do entretenimento.

Então, diploma pra quê, né?

Blogs, tudo bem. Compromisso beirando o zero. Nem podem ser considerados como imprensa estabelecida. Mas e que tal os grandes portais anteriormente referidos? Se não tem uma base física para apurar o acontecido, pelo menos que se faça um melhor levantamento no material disponível. Muitas vezes o resultado que obtemos da tradução é mesquinho, ou existe carência de recursos visuais, como fotos, infográficos e mapas. É falta de compromisso com o fato, e uma afronta ao leitor.

Sabe, aqueles tempos do Capote deveriam ter sido bem melhores. Hoje temos tanto avanço técnico, com tamanha potencialidade na precisão das informações, mas ao mesmo tempo temos uma imprensa alienante, de propósito.

E como sair dessa armadilha?

Aprenda outra língua. Tenha contato com outros ambientes. Escute ricos e mendigos. Construa a sua notícia, mesmo que ela não seja a verdade mais próxima daquela que de fato é. Ao menos, será o fruto de vários ambientes e contrastes, que te fará ter uma visão bem mais ampla do que ocorreu, ao contrário do lixo que é vomitado nas nossas telas pelos conglomerados da informação, imprecisos, incompletos e tendenciosos.

Sabe a Wikipedia? Todo mundo Seus professores adoram insultá-la, mas com certeza é o primeiro veículo que procuram para ter um pequeno resumo sobre algum tópico que não dominam. Além do mais, é um ambiente colaborativo e regrado, sendo difícil encontrar um artigo que não satisfaça a curiosidade inicial de quem pesquisou.

E até aqui o conselho da segunda língua é válido. Compare a extensão do artigo do Capote entre a gringa e a brasileira.

Complexo de inferioridade? Não. Entretanto não podemos negar que nos entregamos a uma posição inferior quando simplesmente aceitamos reproduzir conteúdo alheio sem o mínimo de cuidado, ou ainda pior, aceitar consumi-lo.

Todo mundo sabe da balbúrdia que o filme anti-islã está causando, o Innocence of Muslims, dirigido por Sam Bacile e que tem como um dos produtores o pastor maldito Terry Jones. Para quem não sabe, trata-se de um vídeo divulgado no Youtube que mostra cenas de um filme independente norte-americano, onde Maomé, o profeta sagrado dos islamitas, é visto como assassino, molestador de crianças, homossexual e várias outras coisas que não são agradáveis para a comunidade muçulmana.

Daí se seguiu um verdadeiro caos. Protestos e ataques em dezenas de países em praticamente todos os continentes, Estados Unidos obrigado a encerrar representações diplomáticas em várias localidades, Google se recusando a retirar o vídeo do ar... Até aqui onde moro, a polícia foi posta em alerta para vigiar o grupo mais radical da cidade, que conta com cerca de 200 pessoas, principalmente depois do grupo de extrema-direita Pro Deutschland anunciar que levaria a filmagem para os cinemas.

E o pior de tudo, a morte do embaixador norte-americano na Líbia.


                                                                                      Chris Stevens. Fonte: AFP

A mídia brasileira, louca por sangue e sensação, explorou bem o episódio, como todos os outros que decorrem de explosões de fúria religiosa. Abri a aba no meu Chrome, li a notícia, que estava até bem feita, e parou por aí. Virei-me pra minha mulher, meio estarrecido, e contei que "mataram um embaixador norte-americano", que "desde mil novecentos e setenta e tanto isso não acontecia", e voltei pros meus afazeres.

Nem lembro como tinha entrado naquele site gringo, se deliberadamente eu tinha procurado mais informações, ou se foi por acaso, mas o que se seguiu foi uma torrente de mais informações que deram uma profundidade bem maior, e inclusive, mais humana. Infelizmente não tenho mais os links, e não vou procurá-los.

Chris Stevens, o embaixador, tinha apoiado a deposição do Muammar Gadaffi. Tinha ajudado aquele povo a tentar sair da opressão. E em troca, agora sofria por uma atitude irresponsável da qual não tinha o mínimo de participação. E que também um outro oficial, Sean Smith, tinha sido assassinado, junto com mais dois indivíduos.

Descobri que, assim como eu, Sean Smith jogava havia quase dez anos um joguinho de naves espaciais pela internet. Que inclusive, assim como eu, tinha assumido um importante papel no contexto daquele grupo nos últimos tempos. Ele, o VileRat, tinha arquitetado diplomaticamente a queda de seus inimigos, enquanto eu, o Sanji, tinha demonstrado as brechas de segurança do banco de dados do jogo ao qual eu pertencia.

Vi um pouco de mim ali. Vi a comoção de seus amigos gamers, que o homenagearam das mais diversas formas, desde renomeando suas bases estelares para o nome dele, ou simplesmente lembrando fatos antigos, como quando ele estava em Baghdad e desconectava repentinamente, por ouvir morteiros e sirenes do lado de fora do edifício, passando dias até reaparecer, são e salvo.

(12:54:09 PM) vile_rat: assuming we don't die tonight. We saw one of our 'police'  that guard the compound taking pictures

[vile_rat  9/11/12 2:40 PM]:  FUCK  
[vile_rat  9/11/12 2:40 PM]:  gunfire

E assim como ele, eu acredito no diálogo entre as diferenças. Mesmo os problemas mais singelos, como brigas de casal, ou disputas maiores, entre nações. O diplomata sempre deve vir antes do general. E mesmo não sendo um diplomata, não quero morrer como ele, por irresponsabilidade de outra pessoa, ou como a quase centena de pessoas que perderam suas vidas durante os distúrbios.

E não vi nada disso na imprensa brasileira.

Tudo bem que são fatos não muito importantes para o leitor comum, mas por que não noticiaram, na mesma ostensividade do assassinato do embaixador, que o filme foi praticamente redublado pare se transformar numa afronta ao Islã?

Ahn?

Estes dias estava lendo os meus feeds, atividade que exerço diariamente, quase que religiosamente, pelo Google Reader. Assino o site de um dos meus escritores preferidos, Neil Gaiman, local onde me deparei com isso. Depois achei isso e isso.

O filme não era uma afronta a Maomé. O filme tratava de duas tribos em disputa por um meteorito no deserto. Os produtores redublaram falas, contaminaram o script original sem permissão de quem ali trabalhou, para essa transgressão que causou morte e dor eterna para centenas de pessoas.

Esses são, sem dúvida alguma, fatos importantíssimos no contexto da história. E até agora, não vi em lugar algum noticiado, ou melhor, reproduzido, na mesma magnitude dos primeiros acontecimentos. As páginas iniciais dos sites de notícias continuam com suas manchetes vazias.

É geralmente como as coisas ocorrem para os golpes de Estado. Lemos que um país sofreu um golpe e...? Um abismo para os acontecimentos posteriores. Pula pra próxima manchete.

Eu me pergunto o motivo disso. Não consigo enxergar nenhuma decisao ideológica por trás de uma pretensa seletividade dúbia. Só consigo imaginar que além de tendenciosa, alienante e deficiente, a imprensa brasileira também é imbecil porque simplesmente é imbecil. Mais uma prova que sua cobertura é limitada e que nós não sabemos nem o mínimo do que poderíamos saber.

Imagine ainda que isso, com certeza, nem é 50% da verdade. Os contornos reais devem ser ainda mais sombrios. Há rumores de que ele não teria sido morto pela fumaça das explosões, mas sim perseguido, torturado e violentado, em mais um triste 11 de setembro.

A culpa não é apenas dos muçulmanos. Tive experiências muito ruins com indivíduos dessa comunidade, e pessoalmente é um cultura a qual não gosto de conviver. A grande maioria foi rude comigo, intrusiva, e muito provavelmente existiram pensamentos de choques físicos de ambos os lados. Mas isso não me dá o direito de ridicularizar a religião alheia de tal forma. Você pode combater práticas, como se fez há um tempo atrás em relação ao infanticídio indígena, mas você nao pode combater crenças. São aspectos culturais que nem te pertencem. Em palavras mais acertadas para nossa realidade, critique o pastor ladrão, mas nao critique se ele crê no arrebatamento.

E que fique claro, mesmo isso não dá o direito do contra-ataque violento dos muçulmanos.

Isso tudo me lembra do hype que é feito em torno de Julian Assange. O cara é foda, o Wikileaks mais ainda, mas... quantos falaram sobre Bradley Manning, o soldado que, depois de extrema pressão psicológica, fez vazar os dados sigilosos do exército dos Estados Unidos, como logs de guerra e filmagens de helicópteros atirando em civis, e que hoje está preso, passando por torturas?


                                                                                            Brad antes e depois.

O Assange é bem mais midiático. Homem bonito, que sabe como chamar a atenção e fazer discursos inflamados. Tomou pra si o peso de ser a face pública de uma organização que mexe com gente grande. Já o Manning, recebeu algumas notas, algumas matérias perdidas, e hoje está esquecido, sendo privado de dormir pelos carcereiros e obrigado a passar horas em pé, sem roupas.

É bem mais midiático também, por exemplo, que o The Pirate Bay esteja enfrentando seu enésimo processo, e que mais um dos seus foi preso. Mas não é tão interessante falar o quanto que eles puderam contribuir na vida de milhões de pessoas, em termos culturais, intelectuais ou de puro lazer. Porque é sempre mais interessante colocar a culpa no usuário, no humano, e não no sistema debilitado sustentado por corporações e Estados caducos.

E enquanto somos idiotizados pela mídia, somos vigiados. Mantém-nos como, sei lá, ratinhos numa caixa de vidro com Insulfilm. Exemplo mais do que idiota, mas eu gosto de ratinhos. Estamos vivendo uma revolução rápida nos costumes da sociedade. Temos armas ao nosso alcance, sabemos como usá-las, mas estamos tão alienados que não percebemos o poder que elas nos proporcionam, ou até mesmo que são armas.

Nós somos essas armas. Se um escritor luta com as palavras (não no sentido do Drummond), as palavras vieram dele. Se um ativista luta com as ideias, elas também vieram dele. A internet é um catalisador de informação, de pessoas, de gestos. O que fazemos não fica mais preso no nosso mundo. Inspirar, organizar e agir agora é mais fácil do que jamais foi, e não podemos aceitar o tratamento que nos é atualmente despendido.

Nos últimos meses, minha área de estudo na Geografia tem sofrido mudanças para conteúdos mais específicos. Fruto de uma frustração ou de um enlightenment, dependendo do ponto de vista. E, sempre que eu desejar colher algum material de pesquisa, precisarei seguir um pequeno ritual.

Primeiro, acessar uma partição oculta no meu computador. Depois, resgatar um arquivo que funciona como uma chave. A partir dele, seto uma rede privada e uma camuflagem de endereço, fazendo de conta que moro no Canadá, para enganar o cara da Universidade encarregado de olhar o que acesso na internet. Por fim, executo um navegador modificado para acessar links que se parecem com isso aqui: http://3jhrn5o3njd98fb4mbve8.onion. O motivo? Porque sou vigiado, rastreado. Até para fazer o meu próprio estudo, sou tomado antes como criminoso, passível de punição e retratação. E não posso me relegar num outro tipo de estudo, enquanto certas coisas acontecem nos últimos territórios a serem explorados pelo homem.

É preciso fazer de si mesmo uma resistência, antes que nos cortem esse direito. Uma atitude é se informar com fontes de fora da caixinha de Insulfilm. Não aceite a comida que te entregam, cace a sua própria. Ou você acha que não existe dinheiro no mundo que "compre" o AmigoogleAté seu melhor amigo pode ir embora. E quando nós percebermos o quanto abrimos mão, o quanto deixamos ser invadidos, será tarde.


Guy Debord, um dos nomes que mais me saltam à boca, nos falou do espetacularização do que vivemos. Não que o que vivemos seja algo fantástico, mas sim que tornamos a mais trivial imagem em um espetáculo. Cabe a nós mesmos decidirmos se vamos continuar idiotizando o mundo, enquanto somos dominados, ou se vamos transformar essa peça de arte de mentira em algo melhor. Lembro do Admirável Mundo Novo, a liberdade que nunca existiu, mas que cremos que existe. Como podemos desejar ou lutar por algo que sequer experimentamos? Não temos sequer democracia de verdade. Nosso trabalho há séculos é vendido em troca de migalhas. Assistimos mentiras diariamente.

Por isso, não aceitar é resistir.

Para não terminar nesse clima ruim, recomendo o Opera Mundi, no Brasil, e sites de revistas benquistas, como Carta Capital. Para a gringa, visite o The Huffington Post ou Al Jazeera. Know Your Meme é essencial se você é curioso sobre nossos queridos memes.

E um gif pra arrancar uma risada.


                                                                                          Oppa Gangnam Style!

1. Se algo não foi coerente, por favor, faça um esforço.
2. Pessimismo? Precaução.

Um comentário:

  1. Uau, era disso que eu falava ontem à noite quando fiquei de birra com você. Digo, fazia tempo que eu não te via tão brilhante, tão coerente...
    Você falou tudo, não deixou espaço pra nada. A cada frase que eu lia, lembrava de uma das milhares coisas que já discutíamos, aí, no parágrafo seguinte, você tocava no assunto.
    Valeram à pena os dois dias que você passou trabalhando nisso. Estou orgulhosa, de verdade. Fazia tempo que eu não via seu verdadeiro eu.
    Não sei exatamente o que dizer, mas parabéns.
    Beijos.

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