20 de agosto de 2014

O Spotify pode mesmo salvar a indústria musical...

...e digo isso como um ativista, acadêmico do assunto, mas sobretudo um pirata há quase duas décadas.

Até 1999, a indústria musical nunca experimentou uma revolução tão grande de suas práticas e consequências destas. O Napster trouxe ao mundo, através de um software quase caseiro, o compartilhamento digital de arquivos musicais. Em outras palavras, distribuía-se aos amiguinhos conhecidos e desconhecidos todo o seu acervo musical. Gratuitamente.

De Beethoven e Vivaldi, até Britney Spears, passando da "morte" do vinil ao advento do CD, nada mudou muito até aquele ano. Artistas faziam suas músicas, vendiam cópias físicas assim como suas apresentações ao vivo. A partir do Napster, o consumo musical se tornou maciçamente gratuito, e ilegal.

A indústria surtou. Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo. E como toda situação do tipo, a saída foi fácil chamou-se um monte de advogados para complicar ainda mais e todo mundo fingiu entender e que tinha razão. Mesmo sofrendo uma agonizante morte, o Napster abriu as portas do que seria o inferno na música do novo milênio para os executivos.

Este gatinho fez companhia a muita gente.

Na verdade, o Napster abriu possibilidades. Alguém aí lembra dos teóricos radicais? Algo como "não adianta reformar um sistema falido, e sim pô-lo abaixo e refazê-lo"?

O Napster morreu, mas sua tecnologia, a transmissão entre pares chamada de P2P, vingou. E logo depois importantes aliados foram aparecendo, como os indexadores e endereçadores de arquivos .torrent, como o ThePirateBay, que depois de tantas tentativas de acabar com ele ganhou a alcunha de "O Site Mais Resiliente da Internet". Aliás, lá foi um dos backgrounds no surgimento e ascensão do movimento pirata internacional.

E desde quando as pessoas colocam tapa-olhos e fingem navegar pelos rios poluídos?

Na verdade o movimento pirata, em poucas palavras, é toda forma de luta, seja ela institucionalizada, descentralizada, desobediente ou resistente pelo acesso justo aos bens culturais de consumo ou arte. São esses os livros, músicas, jogos, filmes... toda a miríade de possibilidades culturais que, de tão importantes, fazem parte do escopo que nos diferencia dos animais irracionais.

Lar de piratas do mundo todo.

Esta luta começa, sobretudo, em razão da ânsia capitalista destrutiva do lucro, imediato e irrestrito, que não se impõe limites humanísticos, territoriais ou éticos. Um livro custar a bagatela de, por exemplo, 70 reais, ou um disco uns 40 reais, encerra uma lógica perversa de exclusão e desigualdade que vai além do "tá muito caro". Isto porque, muitas vezes, um estudante pode não ter recursos suficientes para estudar certa matéria, recorrendo a uma ajuda praticamente inexistente de sua universidade, que por sua vez indica a biblioteca sempre esgotada. No fim, todos terminam na fila da xerox. Movimentos de contestação e renovação, como os Partidos Piratas, surgiram no mundo todo, além de pessoas que anonimamente disponibilizam seus arquivos todos os dias de maneira independente. No Brasil houve até pequenos mas importantes grupos de reprodução bibliográfica cujos arquivos ainda continuam circulando uma década depois.

Há quem diga que, tudo bem, livros de estudos são itens de suma necessidade. Mas não música ou mesmo jogos. Ora, então estamos a tornar a arte elitista? E afinal, quem pode valorar a arte? A demanda ou o senso de satisfação do artista ao ver seu trabalho correndo o mundo não importam mais que um bolso rasgando de tão pesado? Logicamente cada um tem o direito de tirar proveito econômico daquilo que faz, de forma justa. A questão, na realidade, é que este proveito não é justo e nem sequer chega direito ao criador da obra.

E então a coisa fica ainda mais feia quando uma massa, agindo pelo seu direito inalienável de cultura, tenta o acesso como pode, recorrendo muitas vezes aos vendedores de rua ou, para os mais afortunados, baixando tudo na internet e pronto. E assim, os bens culturais se reproduzem, associados à crescente tecnologia e encarando ao seu modo as injustiças socioeconômicas.

Eu mesmo participei de perto desses circuitos. Conheci suas técnicas, estratégias e sentimentos de solidariedade no compartilhamento. Um HD apinhado de músicas para o devido bem-estar não tira o acesso de ninguém. Porque copiar não é roubo.

Bem, mas tem uma lógica reversa nisso tudo que sempre me incomodou. Particularmente preferia piratear músicas por achar absurdos os preços praticados pela indústria nos discos. Nunca comprei sequer algum. Minha estante jamais comportou tais objetos. Mesmo o modelo de venda do iTunes, agora obsoleto, de vender faixas em separado, ainda não era justo. Pagar uns dois reais por canção não era conveniente, principalmente para o maior público em potencial, constituído de piratas que consumiam muita música. Nenhum iria pagar caro tendo opções gratuitas à disposição. Por dia, eu costumo escutar duas horas de músicas novas. Daria uns 60 reais diários. Absurdos 1860 reais apenas de músicas no fim do mês. Caso semelhante ao que é praticado pelas livrarias do Brasil, que tentam enfiar preços elevadíssimos de ebooks na goela dos consumidores.

Algo não vai bem.

O capital parece sempre demorar a se adaptar ao que não compactua com suas direções, quando não o fagocita metabolizando num agente sob seu poder. Naquela época, muitos acharam que ali estava a salvação da indústria que já sofria perdas históricas, e pensavam que deveriam sim, pagar cifras ainda absurdas que potencialmente "contribuiriam" para a saúde geral do sistema.

O preço não se justificava. O custo de produção, logística, pagamento de envolvidos e demais fatores é como o preço do carro no Brasil. Não cola. É pura e simples ganância da indústria. Recusei-me veementemente a colaborar com qualquer plano de enriquecimento através de bens culturais e arte, atividades tão cheias das coisas boas da vida. Aliás, números e declarações apontam que a parte principal no processo, o artista, é por vezes a pior paga. Por que então alimentar um atravessador sem escrúpulos como muitas das grandes gravadoras? As iniciativas indies de sucesso estão aí para mostrar que é possível.

O modelo de negócios não era sustentável e lentamente se arrastava para o buraco. Os artistas precisavam cobrar mais caro nos shows, as pessoas recorriam mais vezes aos métodos alternativos de acesso e até o estilo de arranjo familiar DINK, em subida no Brasil, não casa com gastos desnecessários. Menos é mais. Mais espaço na prateleira. Tudo digital, tudo no ar. Tudo na nuvem.

Nuvem é a palavra mágica da web atual. Com o uso fácil e rápido na maioria dos lugares, em casa, no trabalho, na universidade e até mesmo no meio do mato — Deus abençoe os satélites —, a opção de guardar tudo online parece muito atrativa pela disponibilidade, segurança e custo reduzido. Sei que existem dois lado negativos especificamente nesta parte, mas não vamos abordá-los. A saber: a privacidade que concerne aos nossos dados pessoais guardados nas mãos de empresas e a dificuldade de considerável parcela da população socioeconomicamente excluída que não tem acesso decente sequer à moradia, quem dirá internet.

Queremos tudo à qualquer hora e à qualquer lugar. Não queremos guardar discos até o teto. Não queremos transportar disc-players. Não vamos entupir MP3 players que não duram um ano de vida. Mas se temos computadores, celulares e media centers com uso de internet, por que não tirar proveito?

O streaming é a transmissão de conteúdo em fluxo sob demanda. Os dados vem da rede e chegam até você, rapidamente e sem deixar sujeira. Pense, sei lá, no YouTube. Você escolhe seu vídeo e ele chega. Esse modelo começou a ser explorado há quase uma década pela indústria musical, mas só agora toma forças de avançar, principalmente no Brasil.

Conheci o Spotify em 2012, sem dar muita bola Javier, cabrón!. Com muitos anos de atraso, ele desembarcou em território verde-e-amarelo e me pôs a pensar novamente na questão, oferecendo acesso online e offline a um catálogo de mais de 30 milhões de canções por 15 reais ao mês. Alternativa muito barata se comparada ao que tínhamos como opção. Você gasta mais em cerveja num dia do que isso. Afinal, se eu me recusava a pagar por músicas achando o preço de álbuns ou downloads legais injusto, não estaria a indústria se dobrando um pouco através do Spotify? Pensei então que agora era minha vez de ser um pouco justo também, ainda mais sendo um heavy user de música.

A fórmula do Spotify também é justa em outros sentidos, não apenas no preço ao consumidor final. O artista é realmente pago, tendo como base o número de vezes que é tocado. Especula-se que, a cada play, o ganho seja de um centavo e meio. Pode parecer pouco, mas é uma proposta extremamente horizontal, onde cada artista recebe quantias equivalentes. Não existe aquele preferido que toca o dia inteiro como na rádio, já que você mesmo monta sua playlist ou confere a de algum outro usuário. Por ser na nuvem, custos como logística e estocagem são praticamente nulos, aumentando a quantia paga aos detentores dos direitos. Os números finais podem chegar na cifra de, por exemplo, 425.000 dólares mensais para um álbum de grande sucesso. Quantia mais que suficiente, não?

O Spotify acaba pagando mais do que qualquer outro serviço de música. Seu modelo acaba sendo contestado justamente por isso: oferecer preço acessível ao cliente e pagamento considerável ao artista. Muitos analistas criticam a empresa por não conseguir uma margem própria considerável de lucro, uma vez que, mesmo mais que triplicando sua base de usuários pagos em três anos, com possivelmente mais da metade deles vindos da pirataria, os custos de operação, mais especificamente de pagamento, continuam crescendo. É preciso pagar cada vez mais artistas que entram no catálogo e que são cada vez mais requisitados dentro do sistema.

Spótifai

O caso é que faturar uma quantia absurda de dinheiro não deve mesmo ser o objetivo do Spotify. Talvez ele tenha aprendido para onde isso leva com a experiência da indústria fonográfica tradicional. Daniel Ek, CEO da empresa, trabalhou na equipe do µTorrent. Ele conhece os novos paradigmas de consumo digital. De um lado, o Spotify insiste que, atingindo uma determinada marca de clientes, o modelo se torna mais que sustentável. De outro, analistas sugerem que apenas grandes empresas como Google ou Apple são capazes de tocar esse negócio para frente. De toda forma, é uma proposta nova e coerente, que mesmo precisando se adaptar em algum momento futuro, ainda é bem melhor do que as práticas da indústria tradicional. E o Spotify continua se expandindo. É por isso que, acredito, a resistência seja apenas mais um movimento das gravadoras, que ainda não se acostumaram com o fim da farra dos seus lucros.

A verdade é que serviços como Spotify existem aos montes. Rdio, Deezer, Pandora, Rhapsody... todos bastante parecidos. Então qual a grande vantagem do Spotify? O uso gratuito. Mesmo sem pagar assinatura, o utilizador gratuito tem acesso ilimitado a todo o catálogo, seja pelo computador ou celular, com restrições que não prejudicam a experiência, como ouvir alguns segundos de publicidade entre algumas músicas. Acho que metade do tempo que passávamos ouvindo rádio era apenas com comerciais. Além disso, o design e eficiência do programa são excelentes. A concorrência, por não adotar posturas essenciais ao sucesso com o público, terminou por ceder. É até mais conveniente do que, por exemplo, ficar utilizando o YouTube para ouvir música, como muitos fazem. Lá, quase 90% dos vídeos mais vistos são musicais. 

As publicidades acabam se convertendo em receita para o serviço. Ou seja, mesmo não pagando um centavo, você contribui para que todos saiam ganhando. E quanto mais gente utilizar, mais o artista pode receber. Previsões chegam a valores de até cinco vezes mais pagamentos. E olha que não tem nada a ver com marketing multinível...

Acredito que chegou a hora de mais uma mudança de costumes. A pirataria ainda é difundida, acessível e aceitável, mas a consciência de que todas as partes devem sair ganhando está cada vez maior. Espera-se que os serviços de streaming não cresçam os olhos no negócio e acabem por destruir a melhor proposta dos últimos dez anos, convertendo a todos novamente em piratas full time. A Steam está conseguindo, talvez, o mesmo com os jogos para computador, mesmo sem perceber que o maior impeditivo ainda são os preços de seu catálogo, muito próximos dos preços praticados pelo comércio tradicional, quando não estão nas famosas Sales. Cada movimento do Netflix, este no setor de filmes e seriados, está sendo observado com ansiedade por outra indústria que teima em não mudar — e nos faz engolir aquela porcaria de 3D por uns bons anos.

Em tempos quando o governo começa a distribuir vales-cultura para os trabalhadores, não é absurdo imaginar que, num futuro próximo, as pessoas optem por pagar uma quantidade acessível e atrativa por bens culturais quase ilimitados, num esquema equilibrado.

"We need change, we need it fast
Before rock’s just part of the past"
The Ramones - Do You Remember Rock 'n' Roll Radio?

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